08/08/2026

Dungeons & Blogs:Vestir-se de mim mesma

Eu estava em um momento de redescoberta, vivendo em uma cidade de Capital onde tive maior liberdade para me vestir como gostaria, sem as limitações e o conservadorismo preconceituoso de uma cidade interiorana. Naquela época, eu me sentia bem com o meu corpo, mesmo pesando 55 kg. Minha rotina era bem saudável, com comida feita em casa e alguns mimos com fast-food aos finais de semana, fazia muitas coisas a pé. Mas foi entre 2011 e 2016 que os primeiros sinais de que a depressão estava roubando meu protagonismo começaram a aparecer.

O estalo veio quando eu não cabia mais em muitas roupas que eu tinha, em uma fase onde financeiramente não era viável mudar o guarda-roupas de uma só vez. Eu já tratava a depressão. A primeira mudança  para além de praticar pole fitness e aceitar que eu estava pesando quase 100 kg,  foi passar a consumir conteúdo de mulheres plus size com discursos realistas. Comecei a pesquisar lojas que cabiam no meu corpo e no meu bolso, aceitando que meu manequim não era mais 36 e adaptando o meu estilo ao meu peso atual. Muitas vezes pensei em desistir, afinal a ansiedade, a autossabotagem e a depressão não me ajudavam muito! Mas continuei tentando e trabalhando entre idas, vindas e críticas não solicitadas.

Hoje peso 94 kg, ainda cuido da minha saúde mental e confesso que dou uma derrapada na alimentação vez ou outra. Mas mentalmente falando, estou aceitando mais o meu corpo. Há dias em que de fato não me sinto bonita, em que a roupa que planejei não cai bem, mas recomeço  até perceber que não estou em desconforto. Em comparação ao período em que eu estava com o "peso bom", eu me sinto mais EU, mais original do que nunca! Buscar outros meios para comprar roupas fora do meio alternativo tradicional me devolveu a criatividade e me fez compreender aquilo que gosto ou não de vestir. Ao invés de parecer um NPC, que cada vez veste algo para se encaixar em um estilo alternativo diferente, eu finalmente me visto de mim mesma!

Se eu pudesse falar comigo mesma lá em 2016, quando comecei definitivamente a terapia e onde estive no auge do meu físico, diria para me afastar de pessoas que diziam o que era bom ou não para mim. No primeiro momento em que minha mãe disse que minhas roupas eram "apertadas demais" e que eu estava "gorda"  com 1,65 de altura, 77 kg e fazendo atividade física , ao invés de me calar, teria mandado ela se calar. Mesmo sendo a minha mãe, muitas de suas palavras durante a minha vida foram responsáveis pela minha autoestima.

Eu deveria ter me afastado de amizades nocivas, deveria ter acreditado mais em pessoas que me elogiavam genuinamente, ao invés de dar ouvidos a comentários jocosos e racistas! Quem sabe assim, mesmo com a depressão que me acompanha há duas décadas, eu teria tido um tombo menos dolorido e conseguiria me levantar com mais destreza e rapidez do fundo do poço e da escuridão das minhas emoções, que me autossabotavam.

Teria aprendido a me amar mais cedo. Teria aceitado antes que a subcultura é excludente, sexista, racista, machista e elitista! Teria me comparado menos a padrões, me submetido menos a regras de conduta e curtiria as minhas coisas apenas sendo eu mesma.

By @fatbatdana


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