Eu estive aqui pensando em uma coisa.
Eu nunca fui à manicure, a única vez que fui a um cabeleireiro foi para fazer box braids. Nem sequer faço minhas sobrancelhas com outra pessoa, sempre fui eu mesma quem cuidou delas.E isso me fez refletir sobre algo maior: Muitas de nós, mulheres negras, fomos ensinadas a enxergar determinadas coisas como supérfluas. Fomos educadas para sermos práticas, para nos contentarmos com o que temos e para não ocuparmos espaço demais. Como diria minha mãe: "pegar o boi".
Agora que não estou na minha melhor fase, com as unhas roídas, sem conseguir mantê-las feitas e com os cabelos curtos por conta da queda capilar, percebi algo que nunca tinha notado antes. Eu nunca me permiti aquela pequena regalia que muitas amigas brancas tinham: ir à manicure toda semana, por exemplo. Simplesmente se permitir ser cuidada.
Nós mulheres negras, muitas vezes não somos educadas para isso. Não somos ensinadas que merecemos cuidado. Crescemos acreditando que determinadas coisas são luxo, futilidade ou vaidade excessiva. E estou aprendendo aos poucos, que não é bem assim.Precisei chegar ao ponto em que estou hoje para perceber isso.
E por mais que muita gente tenha ressalvas sobre as redes sociais, ver mulheres parecidas comigo compartilhando suas realidades, seus cotidianos e suas experiências mudou a minha perspectiva. Algumas delas inclusive, dedicam seu tempo a educar outras mulheres negras sobre autoestima, autocuidado e pertencimento.
Pode parecer algo pequeno, mas pare um instante para pensar: muitas vezes, privilégio não tem relação apenas com dinheiro, muitas vezes, privilégio é ter letramento emocional, é ter consciência de que você merece cuidado. É saber que pode dedicar parte do seu tempo, da sua energia e do seu dinheiro a si mesma sem culpa.E não estou falando de consumismo.
Estou falando dessas pequenas coisas que parecem simples: fazer as unhas em um salão, cuidar das sobrancelhas, cortar ou pintar o cabelo com um profissional. Quantas vezes dizemos para nós mesmas que fazemos tudo sozinhas porque gostamos, quando na verdade, talvez tenhamos aprendido que não merecemos ser cuidadas?
Nós nos colocamos sem perceber, nesse lugar de quem cuida de tudo e de todos, menos de si.E essa reflexão não vale apenas para o autocuidado físico, ela também se estende aos relacionamentos.Muitas vezes buscamos aquilo que nos é familiar, aquilo que sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo quando são relações disfuncionais. Repetimos padrões porque eles nos parecem conhecidos. E sair desse ciclo exige mais do que apenas desejar uma mudança.Além da terapia, é preciso autoconsciência.
Porque não basta ter acesso à terapia ou recursos para isso. É preciso estar disposta a olhar para si mesma com honestidade, reconhecer os próprios padrões e admitir que algumas das coisas que repetimos não nos fazem bem.Talvez o primeiro passo para mudar seja justamente esse: reconhecer que merecemos mais, mais cuidado e gentileza! Mais consciência e principalmente, reconhecer que cuidar de si não é um luxo.
É uma necessidade!
Talvez seja isso que eu esteja aprendendo agora, mesmo que um pouco tarde: cuidado também é um direito. Não algo que precisa ser conquistado depois de dar conta de tudo, nem uma recompensa reservada para quando estivermos na nossa melhor versão.Cuidado é uma forma de dizer a si mesma que você importa.
E talvez eu nunca tenha precisado apenas de uma manicure, de um corte de cabelo ou de uma sobrancelha feita. Talvez eu precisasse da permissão para receber aquilo que por tanto tempo, achei que não era para mim.Hoje eu entendo que me permitir ser cuidada não diminui a minha força. Não me torna menos independente, não é vaidade vazia nem futilidade.É apenas uma maneira de reconhecer que eu também mereço ocupar esse lugar.
O lugar de quem cuida, mas também é cuidada.
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