Eu estou bem cansada hoje, estava conversando sobre algumas questões com meu marido e ele soltou a seguinte frase:
Primeiro, elas só comparam a própria vida com quem elas consideram que tá "melhor" que elas... E segundo, elas só comparam o agora delas com o agora do outro... Não olham a trajetória completa, não olham quanto o outro teve que se foder para agora estar bem.
Isso foi algo que me fez refletir bastante.
Escrevi um texto mês passado sobre autocuidado, faziam meses que eu não fazia as unhas por conta da depressão, faziam meses que eu não ligava muito para o meu cabelo pela mesma razão e porque tive que cortá-lo, após oito anos deixando-o crescer naturalmente. Sempre fiz as coisas por conta própria, cuidei de mim com os recursos que tinha até então, eu não tinha acesso a cuidados de beleza fora de casa.
Quando escolhemos cuidar da saúde mental algo cuja manutenção não é barata , escolhemos abrir mão de algumas coisas! Coisas que não são necessidade, mas sim luxo, pela primeira vez na minha vida, eu quis me dar ao luxo de ter essas futilidades que, para muitas mulheres, são rotina.
É interessante como as perspectivas que temos dentro de casa, moldam nossas percepções, caráter e senso de realidade. Muitas pessoas só saem da bolha, quando enfrentam a realidade de suas mães na pele, jamais olharam para essas mulheres até virarem as próprias mães, isso é bem curioso.
Não vou entrar no mérito de falar sobre racialidade e acesso na ótica de uma mulher preta versus uma mulher branca, não tenho letramento suficiente para isso, mas vou deixar algo aqui para vocês pensarem:
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Lindsey Dabani |
O Peso da Estrutura e do Acesso
📚 bell hooks
“Os padrões de beleza dominantes são construídos a partir da branquitude, tornando corpos e características negras ‘fora da norma’ — o que impacta diretamente o acesso e a representação na indústria.”
🔎 Ideia central: A indústria da beleza historicamente privilegia características brancas, o que limita opções para mulheres negras (tons de base, produtos capilares, etc.).
📚 Chimamanda Ngozi Adichie
“Quando você cresce sem ver a si mesma refletida nos produtos ou nas imagens de beleza, aprende cedo que não é o público-alvo.”
🔎 Ideia central: A ausência de representação afeta não só o consumo, mas também o sentimento de pertencimento.
📚 Djamila Ribeiro
“A questão estética também é política: quem tem acesso ao cuidado, à valorização e à visibilidade?”
🔎 Ideia central: No Brasil, o acesso desigual a produtos e serviços de beleza revela estruturas raciais e sociais.
📚 Pesquisa de mercado (ex: Nielsen)
“Consumidoras negras frequentemente gastam mais tempo e dinheiro para encontrar produtos adequados às suas necessidades, devido à escassez de opções.”
🔎 Ideia central: Não é apenas acesso físico, mas também custo e esforço maiores.
📚 Patricia Hill Collins
“Os padrões eurocêntricos de beleza operam como uma forma de controle simbólico, influenciando autoestima e consumo.”
🔎 Ideia central: A beleza está ligada a poder e validação social.
📚 Relatos contemporâneos (mídia e blogs de beleza negra)
“Enquanto mulheres brancas entram em uma loja e encontram sua cor facilmente, mulheres negras muitas vezes precisam misturar produtos ou importar.”
🔎 Ideia central: Diferença prática no consumo cotidiano.
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Refletiram? A situação ainda é mais cruel, quando se trata do meio alternativo, mas isso é papo para outra esfera!
Ouvi muitas vezes durante a minha vida que eu era relaxada, que deveria me cuidar melhor, mas como fazer isso, se tons de base para a minha pele só se tornaram acessíveis poucos anos atrás? Como vou me sentir bonita, se a imagem da mulher negra que a mídia ainda passa é estereotipada? Como vou acreditar em acesso, se a maioria das mãos que aparecem de unhas feitas no Instagram da minha manicure que é negra, são de mulheres brancas?
Eu não vou entrar nem no mérito de falar sobre a carga horária de mulheres brancas e pretas e não, a minha realidade não é a única régua. Mas crescer vendo as mulheres da minha família queimando o couro cabeludo alisando o cabelo no ferro no fogareiro do fogão, apenas para se encaixar, nunca foi exceção, é apenas a soma de mais umas.
O Que Fica ?
O básico não deve ser luxo, mas o supérfluo também deveria ser acessível para todas nós!!!
Ainda estou me adaptando a essa nova realidade, aos novos acessos que ando tendo, mandando à merda quem ousa afirmar que, se não fosse pelo meu companheiro, eu não teria tal acesso. Cuidar de si mesma em casa é ótimo, mas quando isso se torna nossa única alternativa seja por motivo financeiro, seja pela falta de profissionais que possam atender em um local acessível (porque adivinha? A profissional também sofre com a negação de acesso) , precisamos parar e pensar.
Antes de apontar o dedo e afirmar que é relaxo, falta de vontade ou de foco, olhe para a estrutura invisível que sustenta o privilégio de alguns, e o esforço monumental de tantos outros para conseguir o mínimo.
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